Sexta-feira, Fevereiro 3
Domingo, Agosto 30
(*) Cleber Lopez
----- -
Cabo Frio e suas belezas naturais já foram fonte de inspiração de alguns dos mais importantes artistas dos Brasil, tanto da música como da literatura, quanto do cinema e das artes plásticas. A cidade também foi berço de gente que, com sua arte, revolucionou, encantou e imortalizou a nossa história cultural com a ousadia, a garra e a coragem comuns aos que entendem que a cultura de um povo é o seu maior patrimônio.
A música "Café Society", de Edith Veiga, sucesso na voz da Rainha da MPB, Maria Bethânia, em 1968, é um exemplo do momento que vivemos um dia: "Agora estou somente contra a Dama de Preto; Nos dez mais elegantes eu estou também; Adoro riverside, só pesco em Cabo Frio... decididamente eu sou gente bem".
As nossas praias serviram de cenário para Ruy Guerra dirigir Norma Bengell no primeiro nu frontal do cinema brasileiro, no filme "Os Cafajestes" em 1962, que provocou um escândalo moral na época e acabou interditado pela censura. A cidade, dois anos depois, inspirou a obra "Verão no Aquário", da dama da literatura Brasileira, Lygia Fagundes Telles. A Bossa Nova também passou por aqui: O "Barquinho", de Roberto Menescal foi composto no mar de Cabo Frio, um hino a beleza e a exuberância dos nossos dias de verão: "Dia de luz, festa de sol e o barquinho a deslizar no macio azul do mar... tudo é verão, o amor se faz num barquinho pelo mar que desliza sem parar. Sem intenção nossa canção vai saindo desse mar e o sol beija o barco e luz... dias tão azuis".
O artista Sergipano José de Dome trocou para sempre a Bahia por Cabo Frio em 1965 e com muita cor e muita luz, produziu uma das obras mais autênticas e reveladoras de nossa cultura. O francês Jean Guillaume, depois de correr o mundo, desembarcou aqui em 1961 para pintar as nossas paisagens marítimas. Carlos Scliar, aportou na cidade também na década de 60, embora tivesse uma casa em Ouro Preto, em Minas Gerais. Cabo Frio se revelava um balneário sofisticado que tinha acabado de ser descoberto por intelectuais e artistas do Rio de Janeiro, apesar da cidade dispor de apenas um hotel, o "Colonial".
Quem não se lembra do show de Gilberto Gil no coreto da praça no aniversário da cidade ou da visita do "Capitão Asa" ao Colégio Miguel Couto? A verdade é que perdemos a simplicidade... o que nos resta são as piores lembranças: Kika Seixas, na praça Porto Rocha, sobre o palco passando um sabão no prefeito e em todos nós: "Essa praça fede!"
A cidade também foi berço de artistas inigualáveis como o Maestro Jessé Corrêa de Menezes; Antenor Cardoso da Fonseca; Waldemir Terra Cardoso, Pedro Guedes Alcoforado, Antônio Terra, Victorino Carriço; José Casimiro, Célio Mendes Guimarães... o genial Abel Silva, compositor de canções que ganharam as vozes de Elis Regina, Simone, Gal Costa, Maria Bethânia, Nara Leão, Fagner, Cauby Peixoto etc. O Grupo Creche na Coxia, dirigido por um maranhense, José Facury Heluy, escreveu a história teatral da cidade nas últimas três décadas, mas é preciso lembrar de Dona Cacilda Santa Rosa e da família Machado que mantém, desde 1917, o Cine Recreio.
Cabo Frio inspirou e vai continuar inspirando grandes artistas apesar da especulação imobiliária ter destruído nossos casarios; apesar da tétrica arquitetura mineira e de seus caixotes de cinco andares em frente a praia; apesar do crescimento desordenado e da policagem que nos cercou de favelas; apesar da ignorância de nossos políticos que, certamente, nunca leram mais de dois livros na vida; apesar de ainda acreditarmos que a Secretaria de Cultura, que nunca existiu e que nada produziu vá nos servir um dia para alguma coisa a não ser inflar o ego e os bolsos de quem desconhece e não tem compromisso com a nossa história.
É preciso lembrar Lygia Fagundes Telles em sua obra ambientada em Cabo Frio - "a vida num aquário, apesar de pacífica, é uma vida pela metade, pois não oferece luta. Melhor é enfrentar o mar e seus perigos, mesmo que isso custe alguma dor, algum sacrifício. E as mudanças vão chegando lentamente, assim como o vento refrescante que sopra anunciando o final do escaldante verão" - ou lembramos a personagem Lady Cate, de "Zorra Total"- dinheiro nós temos, mas nos falta o glamour!
(*) Cleber Lopez é jornalista e editor do jornal interpress.
Sexta-feira, Março 21
Quarta-feira, Março 19
Terça-feira, Março 11
_______ZUENIR VENTURA_______
"O jornalismo é um processo que exige incessante aperfeiçoa-mento, deve ser um constante aprendizado, um permanente exercício de humildade. O erro de hoje faz esquecer o sucesso de ontem. Um jornal pode ter 100 anos de existência, mas sua credibilidade dura 24 horas, ou seja, precisa ser renovada a cada dia. Um crédito perdido é muito difícil de ser recuperado, se é que é possível recuperá-lo. Talvez seja o capital mais difícil de acumular e mais fácil de perder. Em termos de televisão então, esse tempo se reduz a segundos, que é a unidade do veículo: a confiança pode ser perdida não em 24 horas, mas em segundos."
"Não viemos à Terra para julgar, nem para prender ou condenar, viemos para olhar e depois contar. Não somos juízes, não somos promotores, somos jornalistas, somos testemunhas de nosso tempo, uma testemunha crítica, não necessariamente de opo-sição, mas implacavelmente crítica. Não quarto poder, como a imprensa gosta de se proclamar, mas contra-poder, ou seja, independente em relação a todo poder – executivo, policial, econômico, político ou jurídico."
"O jornalista irresponsável não será menos irresponsável por ser jornalista. Ao contrário, o jornalista leviano é tão nocivo ao jornalismo quanto um censor conseqüente. Com uma vantagem para este último: em nenhum momento ele finge servir à imprensa."
"Não sou nostálgico dos velhos tempos, não acredito que o novo jornalismo tenha vindo para acabar com a criatividade, com o talento e a ética. Um sistema que possibilitou a existência de tão bons exemplos profissionais em todo o mundo não pode ser maldito por natureza. O problema é que no Brasil estamos vivendo uma fase de mutação, de rito de passagem. Já deixamos de ser e ainda não somos. Mantivemos alguns defeitos dos velhos tempos sem adquirir as virtudes dos novos."
"Uma crise pode ser paralisante, depressiva, mas também pode ser progressista, transfor-madora. Acredito, espero, que a nossa crise seja desse último tipo – seja uma crise adolescente, de transição de um sistema para outro. Ou, como se diria hoje, de um jornalismo pré-moderno para um jornalismo pós-moderno. Mas essa passagem tem que ser feita sem perda de substância e de valores."
"Podemos alcançar uma excelente técnica, podemos modernizá-la; devemos perseguir uma invejável estética, devemos embelezá-la; mas não devemos, não podemos suprimir a ética ou cancelar a responsabilidade social. Se não formos orientados por uma inatacável ética, a sociedade continuará desconfiando de nós. Há os que dizem que o jornalismo, por ser um ofício e uma técnica, não precisa de ética, ou que a ética é também uma questão de mercado. Sabe-se até onde isso pode chegar. O século XX nos ensinou que a técnica sem o controle da ética pode levar aos piores crimes. De bons técnicos Hitler estava cheio, e Stálin também."
"Mesmo numa sociedade controlada pelas leis do mercado, pela lógica do consumo, movida pela competição e o lucro, mesmo numa sociedade de espetáculos, de ditadura do marketing – eu diria que por isso mesmo, principalmente por isso – o jornalismo tem que ter um autocontrole, uma autocrítica, uma ética. A questão é que esse controle não pode ser remoto, não deve ser exercido por outros poderes. É inaceitável recebê-lo de fora. Não por corporativismo, mas porque isso já foi experimentado no Brasil, é a censura, cujos efeitos sabemos como foram desastrosos para todos, sobretudo para o país. Temos nós temos que cuidar de nossas feridas e enfrentar nossos próprios desafios. Temos que aprender que nosso direito à liberdade não pode se exercer como um atentado ao direito de privacidade do outro."
"A língua portuguesa não vem sendo bem tratada nas redações, essa é que é a verdade. Não só nas redações, pode-se alegar, mas também em outros lugares onde deveria ser respeitada: salas de aula, escritórios de advogados, universidades. Por toda parte transgridem-se as regras gramaticais, assim como se infringem as leis de trânsito. Em meio a outras crises, institucionais e de valores, há essa crise da palavra – escrita e oral – para preocupar o país. Como disse Octavio Paz, quando uma sociedade se corrompe, a primeira coisa que se decompõe é a linguagem."
"Considero a escrita jornalística um ótimo exercício de disciplina. É como o treino físico para o atleta. As exigências da linguagem de jornal, obrigando-nos a racionar o adjetivo e o advérbio, a trabalhar mais com o substantivo e o verbo, isto é, com o sujeito, o predicado e o objeto, categorias essenciais para a comunicação, são um ótimo exercício de contenção e parcimônia. As limitações de espaço são outra imposição que leva o jornalista a um permanente e salutar trabalho de corte e expurgo, de redução. Só é preciso tomar cuidado para que esse exercício asséptico não leve à penúria de estilo. Dependendo do regime, o emagrecimento é sinal de fraqueza e não de saúde."
"Sou de um tempo em que a imprensa não era um dado do mercado, mas um fenômeno da cultura. O jornal não era um produto industrial mas um bem cultural. A relação entre o leitor e o jornal era de absoluta independência. Não é que o veículo não precisasse de sustentação, mas ele acreditava que sua missão era de condutor. O seu destino era impor sua opinião ao leitor. Não lamento sistematicamente essa transformação. Acho que houve muito ganho. O saudosismo não deve ser um álibi para não se valorizar o presente. Nunca os Estados Unidos tiveram no passado um jornal tão bem feito e importante quanto o 'New York Times'. Nem a Europa um jornal tão interessante quanto o 'El País', só para ficar em exemplos não polêmicos porque distantes de nós."
"Na época da ditadura militar, a censura se exercia por corte. Havia penúria de informação. Hoje, ao contrário, há demais. Mas como o excesso produz ruído, entropia, confusão, ele acaba funcionando como uma nova espécie de censura – por indigestão."
"O melhor jornal brasileiro seria feito não com informação, mas com explicação."



